Bolsonaro contraria orientação de ministério e critica todo mundo por isolamento social (Foto: Arquivo)

Preocupado com o provável efeito devastador do isolamento social para combater a pandemia do coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) causou indignação e deixou autoridades e médicos estarrecidos com a tentativa de “cancelar o fim do mundo” no grito. Em rede nacional de rádio e televisão ontem e em entrevista hoje (25), ele condenou prefeitos e governadores pelo fechamento do comércio e suspensão das aulas.

Ao tentar evitar colapso econômico, Bolsonaro criticou a quarentena imposta a maior parte dos brasileiros. Ele classificou como “criminosa” a atitude dos governadores e prefeitos que determinaram o fechamento do comércio e de escolas públicas e privadas. Ele disse que “gripezinha”, “resfriadozinho”, não pode parar a economia.

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Líder do EndireitaCG, o empresário Rafael Tavares endossou as críticas do presidente. “Hoje é dia de jornalista ficar com dor de barriga e político covarde de DISCURSO FÁCIL, enfiar o rabo entre as pernas. Jair Bolsonaro é o Presidente mais cabra macho que esse país já teve. As viúvas do apocalipse podem chorar, cancelamos o fim do mundo. #BolsonaroTemRazao”, tuitou ele.

No entanto, a maioria condenou o discurso presidencial. “Foi um discurso equivocado e infeliz, porque esse vírus possui virulência bem acentuada”, lamentou o presidente do Sindicato dos Médicos de Mato Grosso do Sul, Marcelo Santana. “Só ação efetiva foi o isolamento social”, comentou.

Com o distanciamento social, o Brasil pode impedir surto de milhares de casos ao mesmo tempo e dar tempo para o sistema de saúde tratar os doentes, porque a indústria não dispõe de equipamentos de proteção individual (máscaras e álcool gel), remédios (como o da malária) nem respiradores artificiais para dar conta da demanda.

“Entendemos o discurso como estarrecedor”, afirmou o secretário estadual de Saúde, Geraldo Resende, em entrevista ao Midiamax.

Marquinhos Trad anunciou que manterá as medidas, apesar de terem sido condenadas pelo presidente da República (Foto: Divulgação)

Responsável pelas medidas mais duras no Estado, como fechamento do comércio, do terminal rodoviário e das escolas, Marquinhos Trad (PSD) manteve os decretos após o pronunciamento do presidente da República. “A ciência já comprovou que a doença é grave e mata. Por isso, entre uma fala política e a verdade científica, Campo Grande abraça a ciência”, ressaltou o prefeito da Capital, que também é primo do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

“Atendemos as ações do seu próprio governo que, desde o início da pandemia, vem destacando a gravidade da doença”, completou Marquinhos, que estuda outras medidas, como o fechamento do aeroporto e a ampliação do toque de recolher de 22 para as 20h.

“Ele agiu mal. Todo mundo entendeu como um pronunciamento lamentável, destoado do cenário atual e contrário à orientação da OMS (Organização Mundial de Saúde) do seu próprio ministro (da Saúde). Acho que quando a gente lida com vidas não podemos agir com achismo. Então, os prefeitos, em quase a sua totalidade, lógico que alguns agiram a sua maneira, uns mais radicais, vão manter as suas ações para evitar a circulação de pessoas”, avaliou o prefeito Pedro Caravina (PSDB), de Bataguassu e presidente da Associação dos Municípios de Mato Grosso do Sul.

Toque de recolher deixou ruas e avenidas vazias em Campo Grande (Foto: Divulgação)

Presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, Simone Tebet (MDB), também condenou o discurso de Bolsonaro. “Errou no timing, na forma e no conteúdo. Agora é hora de ficar em casa para salvar vidas. Com planejamento e responsabilidade, em breve estaremos voltando ao trabalho, às escolas e ao convívio social”, recomendou a senadora.

Para o deputado federal Fábio Trad (PSD), Bolsonaro contrariou o próprio Governo, que vinha batendo na tecla de que se travada de doença grave e até criticou a demora da OMS em declarar pandemia.

Como exemplo de que não se trata de uma simples gripe, o parlamentar citou o caso do irmão, Nelsinho Trad (PSD), que ficou internado por quatro dias e ainda precisou de respirador nasal. Ele ressaltou que o senador ainda se recupera em casa, apesar de ter 58 anos, não fumar, beber socialmente e jogar futebol duas vezes por semana.

Medidas já adotadas para minimizar a crise

  • Aneel proibiu as concessionárias de energia, inclusive a Energisa, de cortar a luz por falta de pagamento por 90 dias;
  • Sanesul e Águas Guariroba não vão suspender o fornecimento de água durante o estado de emergência;
  • Toque de recolher na Capital segue das 22h às 5h;
  • Tribunal de Justiça de MS destinará os recursos das penas alternativas para o combate à Covid-19 no Estado;
  • Hospitais suspenderam atendimento ambulatorial e cirurgias eletivas;
  • Idosos devem redobrar o cuidado ao se vacinar contra H1N1 – manter a distância de dois metros e evitar aglomerações

“Nas crises é que sabemos se o governante é ou não um verdadeiro líder. O pronunciamento do Bolsonaro – cheio de piadas, ironias e autoelogios – atesta que ele não é o líder que o Brasil precisa para enfrentar a realidade atual. Bolsonaro foi inconsequente e irresponsável. Contrariou as orientações da Organização Mundial de Saúde e do próprio Ministério da Saúde, uma completa insanidade. É lamentável, é vergonhoso, atenta contra a vida da população”, condenou o deputado federal Vander Loubet (PT).

Mais tímida foi a manifestação do governador Reinaldo Azambuja (PSDB), que chegou a ser alvo de memes por se manifestar muito pouco durante a pandemia. Em nota publicada pelo Campo Grande News, o tucano foi um dos poucos governadores a ignorar o discurso de Bolsonaro.

Conforme o site, Reinaldo defendeu a preservação de vidas, “combatendo a pandemia e também o caos econômico e social, representado pela possibilidade de desemprego agudo, agravamento da fome entre os mais vulneráveis e o desabastecimento da população”.

Em entrevista nesta quarta-feira, Bolsonaro ainda defendeu a mudança na quarentena de horizontal para vertical. Ele anunciou que tentaria convencer o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, a adotar a medida, que restringiria o isolamento social aos idosos com mais de 60 anos de idade. O restante da população voltaria  à ativa normalmente.

No entendimento de Bolsonaro, que não tem base científica nem experiências em outros países, a medida seria suficiente para combater a pandemia e manter a atividade econômica. Para as autoridades de saúde e médicos, a medida corre risco de ampliar a tragédia e levar a morte de milhares, como já ocorre na Itália e Espanha.

Nesta quarta-feira, a pandemia superou 450 mil casos confirmados no mundo (453.074). Já são mais de 20 mil mortos (20.519). Itália (74.386 casos) e Estados Unidos (61.062) estão na briga para ver quem vai superar primeiro a China (81.218).