Mário Pinheiro, de Paris – Depois de um dia de muito, mas muito trabalho, tantos projetos redigidos, inauguração de universidades, farmácia popular, telefonemas com os mais variados chefes de Estado, Kadafi, Sadam Hussein, Bachar El Assad, Mobuto, Trump, era hora de voltar pra casa, beijar a esposa super fiel, brincar com o cachorro e dar um chute no gato. Os cinco seguranças e o assessor para assuntos imediatos jogavam videogame no grande salão que se perdia de vista. Um e outro brincavam com a empregada e puxavam o gato pelo rabo.
Ele chega em casa exausto, abre a camisa, tira o “tresoitão” da cintura, o colete à prova de balas, põe na cabeceira da cama e corre pra ducha, mas antes grita “amorzão, tô entrando naquele jato escocêis, óquei ? e depois jantamos”.
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A mulher preparava bife acebolado, ovo estalado, arroz e feijão com cheiro de fogão de lenha. Era tudo o que ele havia estipulado ao seu retorno. Mas o cansaço vem de surpresa, e, por um minutinho ele se esparrama no sofá de couro e passa a roncar como um Minotauro na caverna ou mesmo um ciclope embebido de vinho. Não havia Ulisses, mas um político pragmático fundador do Partido dos Trabalhadores. Esse tal político revirava sua mente, era fugaz, experiente e excelente orador.
O moço entra noutra esfera da realidade, deita-se num divã e começa a desenvolver a conversa com um senhor sentado, perna direita se repousando sobre a da esquerda, prancheta na mão, baseado bem seguro entre os dedos.
– Pois então caro presidente, o que se passa?
– O que se passa é que tenho sido frequentemente atormentado.
– Mas que tipo de tormento? Pode falar, aqui tem o segredo profissional, é como se você estivesse no confessionário do padre Kelmon.
– Padre Kelmon? Deus me livre! Não confio nele!
– Não tenha medo, pode esvaziar o saco comigo.
– Doutor, eu tenho um passado que me enche de orgulho. Tenho quatro filhos, consegui colocá-los na política, pois é o melhor meio de não fazer muito esforço, mas eles são super, super honestos, ponho a mão no fogo por eles. E digo mais, rachadinha não é com eles, pode até ser que roubem ou mintam um pouquinho. Adoramos, de coração, a pátria do Tio Sam. E eu executei…
– A tiros? Interrompe o doutor.
– Nãooo, grandes obras, fiz todo brasileiro hastear a bandeira nacional, vestir a camisa da seleção, dividir famílias. Neste momento, por exemplo, eu vejo os meus quase trinta anos de vida parlamentar, grandes projetos de política pública, de segurança, fiz uma fila de ambulância ser entregue nos mais diversos postos de saúde; sou o responsável pela biblioteca deste estabelecimento, passo até pano no chão.
– Mas aqui é um estabelecimento penal, retomou o psiquiatra.
O presidente continua, conheci, nos tempos da ditadura, pessoas próximas que detalhavam os estupros, a maneira de arrancar unhas com alicate.
– Espera aí, o senhor está dizendo que conviveu com torturadores?
– Sim, mas isso é um detalhe, eles morriam como se fossem moscas, depois eram enterrados como indigentes num cemitério na zona norte de São Paulo, o de Perus.
– E esse tempo do passado e o presente em que o senhor enobrece a figura de um tal Ustra, psicologicamente, o que te faz?
– Faz nada. Como eu disse, a ditadura errou em não matar uns trinta mil. Mas me diga uma coisa doutor, qual a razão do golpe de estado não ter dado certo desta vez, se o setor econômico sempre apoia extrema direita?
– É que em 1964 havia guerra fria, ingerência americana e desta vez tem muita gente burra e tapada que odeia escola, bate continência pra bandeira estrangeira e canta hino pra pneu.
– E esse processo no Supremo Tribunal Federal, não te faz medo?
A sessão caminhava tão bem como se o cliente estivesse hipnotizado. Mas de repente o sujeito acorda com os gritos do “amorzão”. Vem “cumê” meu capitão, senão “isfria”. Ué, disse ele, dormi quase uma hora e tive pesadelos horríveis.
A santa família, como disse Marx, está em perigo. Aquele carecão do STF não larga do meu pé, acho que vou me esconder na embaixada dos Estados Unidos ou de Israel.