Após cooptar dois gerentes, uma organização criminosa do “Cangaço Digital” planejou roubar R$ 8 milhões de contas bancárias do Banco Santander, no Centro de Campo Grande. No entanto, a briga dos integrantes pela divisão do dinheiro furtado acabou alertando a instituição financeira do furto digital e a prática criminosa foi abortada quando já tinham sido sacados R$ 1,316 milhão por meio de 129 transações de várias contas bancárias.
Em sentença publicada nesta terça-feira (1º), a juíza May Melke Amaral Penteado Siravegna, da 4ª Vara Criminal de Campo Grande, condenou seis integrantes do grupo, inclusive dois gerentes, sendo um integrante da seleção brasileira de futebol para amputados. Eles confessaram os crimes em juízo.
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Álvaro Silva de Almeida, gerente da agência do Santander na Barão do Rio Branco, onde ocorreu o furto, pegou a maior pena e foi condenado a 15 anos de prisão no regime fechado. O outro gerente, da agência do banco na Avenida Coronel Antonino, Patrick Pisoni Loureiro, da seleção brasileira, foi sentenciado a 11 anos de reclusão.
Os outros condenados foram Caio César Pereira Cintra, a 12 anos e quatro meses, Frhançuá Nunes Borges a 12 anos e quatro meses, Luciano Filgueiras Zarbetti, o Alemão, a 12 anos e quatro meses, e Natan Martins Moraes, a 12 anos e quatro meses. O Alemão foi o hacker que adaptou o notebook e forneceu o pen-drive e a caixinha (mikotic) para roubar as senhas dos clientes e transferir o dinheiro.
“Inconteste a qualificadora da utilização de dispositivo eletrônico ou informático, conectado à rede de computadores, com violação de mecanismo de segurança e utilização de meio fraudulento, mormente pela confissão dos acusados Álvaro e Patrick, bem como pela apreensão dos dispositivos (f. 26), Relatório de Investigação de f. 300/311 e Laudo Pericial de Exame de Corpo de Delito em Mídia Digital de f. 1027/1041, que ao analisar os referidos dispositivos eletrônicos, chamados de ‘mikrotiks’ ou ‘caixinha’”, ponderou a magistrada.
“Carece ainda de respaldo as alegações dos acusados Álvaro e Patrick de que teriam aceitado participar da empreitada criminosa por estarem fazendo tratamento para problemas psicológicos, porquanto as propaladas doenças, não tiraram o discernimento e a consciência da ilicitude dos atos praticados, não impedindo de integrar organização criminosa e exercer suas atividades, inclusive as ilícitas, como integrar organização criminosa e furto de numerários da instituição financeira que trabalhavam, entre outros”, rebateu.
“Além do mais, em que pese o Banco Santander tenha ressarcido os clientes e ficado com o prejuízo do desvio de mais de R$ 1.300.000,00 da conta transitória da instituição, assumindo a responsabilidade financeira perante aos clientes lesados porquanto o ilícito foi praticado por funcionários e dentro da instituição financeira, depreende-se dos depoimentos das testemunhas inquiridas em juízo que a as vítimas indiretas foram os clientes do banco, porquanto essa conta transitória, de propriedade do banco, acumulava valores diários de clientes e aplicações, sendo que dessa conta é que saíram as 129 transferências em valores próximos a R$ 9.900,00, para que não fosse necessário a utilização de uma terceira senha de confirmação, para valores acima de dez mil reais, utilizada como segurança para evitar fraudes”, destacou o magistrada, dando um puxão de orelhas na instituição.
“Para esse momento processual, com relação aos acusados Caio César Pereira Cintra, Frhançuá Nunes Borges, Luciano Filgueiras Zarbetti e Natan Martins Moraes, reputo preenchidos os requisitos do art. 312 do CPP, sobretudo em razão da superveniência de decreto condenatório e garantia da aplicação da Lei Penal”, concluiu.
Crime foi planejado na mesa de bar
Conforme a denúncia, Caio e Natan acertaram o furto eletrônico com os gerentes durante um Happy hour em um bar famoso na Avenida Afonso Pena. Para conectar os equipamentos usados golpe, o gerente da agência receberia de R$ 400 mil a R$ 500 mil. Patrick Loureiro ganharia R$ 200 mil.
“A partir de então, foi criado um grupo no whatsapp tendo como participantes apenas o denunciado CAIO, Luciano, ‘Gringo’ e ‘Magrinho’, e, por meio dessa rede social, a pessoa de ‘Gringo’ passava diversas ordens de teste para que o denunciado CAIO repassasse para o denunciado PATRICK, o qual repassava para ÁLVARO, afinal era este último quem estava responsável por realizar as instalações dos dispositivos na agência do banco. Após todas as instalações, com o auxílio de todos os envolvidos, os quais possuíam cada um uma função/atividade diferente e específica, as transações fraudulentas foram efetivadas por esses integrantes ainda não identificados e pulverizadas para contas diversas”, descreveu a magistrada.
Patrick entregou o notebook para Álvaro Almeida, que deixou os equipamentos debaixo de sua mesa e não saiu para o almoço no dia do crime, contrariando um costume. Durante o golpe, ele ameaçou desplugar o notebook porque não estava recebendo nenhum valor desviado das contas correntes.
Sem receber, ele acabou desconectando o aparelho. Somente após receber o depósito de R$ 80 mil, ele conectou o equipamento ao sistema, quando foi feito o alertas contas transitárias e o Santander descobriu o furto digital das contas. Por isso, o grupo só desviou R$ 1.316.300,00. O plano era desviar R$ 8 milhões.
Após o golpe, mesmo com o Garras investigando, o grupo passou a acusar o grupo de São Paulo de ter ficado com a maior parte dinheiro. A fortuna foi transferida para várias contas bancárias de laranjas e empresas.
No entanto, alguns deram pistas. Natan tinha salário de R$ 1 mil a R$ 2 mil na época. Contudo, ele andava em carro de luxo avaliado em R$ 100 mil e presenteou a namorada com iPhone de R$ 8 mil a R$ 9 mil e uma cirurgia plástica de R$ 50 mil.
A magistrada manteve a prisão preventiva de Caio César Pereira Cintra, Frhançuá Borges, Luciano Zarbetti e Natan Moraes. Os gerentes poderão recorrer da sentença em liberdade.