Há 49 anos, em 25 de outubro de 1975, o diretor de jornalismo da TV Cultura de São Paulo, Vladimir Herzog, apresentava-se voluntariamente no DOI-Codi (Departamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna) do Exército, em São Paulo, para prestar esclarecimentos sobre a maneira como conduzia a atuação política e profissional e, de lá, não sairia vivo.
Herzog foi e ainda é o principal nome do jornalismo reivindicado por aqueles que lembram as evidências do regime militar que ceifou a vida de milhares de brasileiros críticos ao governo. Também pereceram nos porões, no entanto, Djalma Carvalho Maranhão, Ieda Santos Delgado, Jane Vanini, Luiz Eduardo da Rocha Merlino, Luiz Inácio Maranhão Filho, Orlando da Rosa Bonfim Júnior e Wânio José de Mattos.
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Os nomes foram divulgados pela Agência Brasil e, entre eles, nenhum é de Mato Grosso do Sul. Essa lacuna nas informações sobre a maneira como a ditadura militar foi vivida pelo jornalismo sul-mato-grossense intrigou o historiador e também jornalista João Prestes.
Após anos no mercado jornalístico do Estado, viu no curso de História da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) a oportunidade de pesquisar personagens e fatos sobre os anos de chumbo nas redações locais. Entre os resultados do estudo, Prestes descobriu que a morte física não foi uma realidade enfrentada pelos profissionais da região, mas houve outras marcas ainda lembradas por quem usou a palavra para desafiar o regime.
Pesquisa identificou que anos de chumbo deixaram sequelas em jornalistas de MS
Como jornalista e pesquisador, passou a sentir o que define como incômodo. “É uma sensação incômoda. Porque, sabendo tanto sobre tudo o que aconteceu, a perseguição pertinaz contra ativistas, políticos da oposição, a mordaça firme imposta à imprensa, os abusos e violações de direitos civis em geral. Sabendo de tudo isso, a gente sedimenta uma opinião baseada em fatos que nos leva a repudiar de forma veemente qualquer tentativa de relativizar aqueles episódios tristes de nossa História”.
Nos bancos acadêmicos, ele comprovou a necessidade de mais pesquisas para apontar as consequências do regime militar. “Quando a gente ouve alguém espalhando inverdades, tentando subverter os fatos, e percebe que não são poucos e em muitos núcleos formam maioria, isso é meio desanimador”.
Prestes constatou que a aura de cidade pacata e bucólica de Campo Grande não escondeu os efeitos cruéis, nocivos e truculentos da ditadura militar. Em artigo publicado pela Revista de Comunicação da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), o pesquisador enfatiza que na Capital Morena, “jornalistas foram presos, processados, perseguidos, levados à força para dar explicações sobre casos esdrúxulos, obrigados a calar e a divulgar tão somente o que a ditadura decidia ser notícia”.
Medo passou a pautar quem viu a tortura de perto e nunca mais foi o mesmo
Entre os casos citados pelo historiador está o do jornalista Sérgio Cruz, que “viu a tortura de perto e confessa que aquilo marcou a sua vida. Saiu de lá revoltado, o pavor foi tamanho que acabou se transformando em coragem e decidiu continuar firme na profissão”.
Outro jornalista marcado pelos anos de chumbo foi Waldemar Hozano, para quem o medo passou a ser sinônimo de cuidado. “Trabalhava no automático, como se tivesse um censor instalado em sua consciência, alertando sobre o que podia desagradar à ditadura, o que não era de bom tom, o que por algum motivo pudesse criar problema para o veículo de comunicação –e assim arruinar seu emprego e dos demais colegas”.
Para os colegas de Prestes, os anos da ditadura não ficaram para trás, ao contrário, rondam a história brasileira e mostram aos jornalistas a face dura da censura. Ele mesmo decidiu pelo tema da pesquisa utilizada como TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) em conversas com o companheiro de profissão Guilherme Filho, vítima fatal da Covid-19, em um período sucedido por jornalistas sul-mato-grossenses sendo alvo de piquetes dos militantes pró-ditadura acampados na frente de quartéis do Exército em Campo Grande.
Em princípio, o trabalho do ainda somente jornalista João Prestes estaria focado na divisão do Mato Grosso. “O Guilherme Filho foi um importante jornalista que vivenciou todo aquele percurso histórico. Ele me apoiou, mas sutilmente me chamou a atenção para outro tema: a ditadura. Muito se escreveu sobre a ditadura no Brasil, mas pouco em Mato Grosso do Sul. Daí até amadurecer o tema, foram poucos dias”.
Como resultado do trabalho, Prestes está contaminado pela pesquisa e, agora, integra projetos que visam contribuir para o enriquecimento da historiografia de Campo Grande e de Mato Grosso do Sul. “Há um campo vasto e isso me anima. Tenho muitas ideias que, aos poucos, quero concretizar”.