No artigo “O fantasma do golpe reaparece, mas a verdade prevalecerá”, o economista e ensaísta Albertino Ribeiro condena o discurso de Jair Bolsonaro (PL) de insinuar que só outro golpe militar pode livrar o Brasil do comunismo. A esquerda defende o estado de bem-estar social, não a volta do comunismo.

“Falar em golpe militar hoje no Brasil é tão arcaico quanto acreditar que numa democracia, político com visão progressista seria risco de implantação do comunismo no Brasil. Digo isso, pois a síntese entre capitalismo e comunismo já está posta. O estado do bem-estar social – praticado há muito tempo na Europa e, principalmente, nos países escandinavos – é o grande norteador do pensamento da esquerda democrática”, explica.

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“Destarte, muitos governos pensaram em uma alternativa ao ‘comunismo’, pois seus tentáculos vinham avançando no leste europeu desde a Revolução Russa de 1917. Essa correlação de forças fez com que, naturalmente, a Europa encontrasse um caminho para o capitalismo menos predador”, pontua.

“Assim, a narrativa de que um governo de esquerda mergulhará o Brasil numa ditadura comunista é abjeta e mentirosa. As democracias capitalistas já assimilaram esse golpe e hoje encontram-se vacinadas”, conclui Ribeiro.

Confira o artigo na íntegra: 

“O fantasma do golpe reaparece, mas a verdade prevalecerá

Albertino Ribeiro

Jair Bolsonaro (PL) voltou a falar em golpe militar. Na sexta-feira, dia 01/04/2022, em cerimônia fechada por ocasião da posse do novo ministro da Defesa, o presidente disse que ‘as Forças Armadas são o último obstáculo à implantação do comunismo no Brasil’. Suas palavras fizeram eco àquelas pronunciadas pelo general Braga Neto, no dia anterior, que enalteceu o golpe militar de 1964.

Falar em golpe militar hoje no Brasil é tão arcaico quanto acreditar que numa democracia, político com visão progressista seria risco de implantação do comunismo no Brasil. Digo isso, pois a síntese entre capitalismo e comunismo já está posta. O estado do bem-estar social – praticado há muito tempo na Europa e, principalmente, nos países escandinavos – é o grande norteador do pensamento da esquerda democrática.

As seguidas crises e a miséria geradas nos últimos 150 anos, na tentativa de se construir o capitalismo puro (Laissez-Faire) forçaram os países europeus a não deixarem o sistema entregue às suas leis de movimento, o que certamente anteciparia a sua entropia.

Destarte, muitos governos pensaram em uma alternativa ao ‘comunismo’, pois seus tentáculos vinham avançando no leste europeu desde a Revolução Russa de 1917. Essa correlação de forças fez com que, naturalmente, a Europa encontrasse um caminho para o capitalismo menos predador.

Assim, esta é a realidade que já se encontra sedimentada. Hoje, um governante de esquerda no mundo democrático traz consigo não mais o sonho de destruir a burguesia e instaurar a ditadura do proletariado, mas uma maneira de salvar o capitalismo.

Veja leitor, por exemplo, os partidos que governam a Nova Zelândia, Portugal e Espanha. Todos trazem no nome a palavra ‘comunista ou socialista’, mas tem sido o destino de muitos brasileiros patriotas em busca de uma melhor qualidade de vida; estou mentindo?!

A propósito, por falar em salvar o capitalismo, tem um documentário excelente na Netflix cujo título é ‘Salvando o Capitalismo’, dirigido pelo diretor Jacob Kornbluth. Nele, o ex-secretário do Trabalho do governo Bill Clinton, o economista Robert Reiche, conversa com várias pessoas sobre formas de salvar o sistema. O filme traz uma proposta reformista.

Ei, psiu! Vale lembrar que ser reformista é o mesmo que conservador, ou seja, é contra uma disrupção.

Assim, a narrativa de que um governo de esquerda mergulhará o Brasil numa ditadura comunista é abjeta e mentirosa. As democracias capitalistas já assimilaram esse golpe e hoje encontram-se vacinadas.

No século XIX, Karl Marx previu o fim do capitalismo porque na sua época era impensável a intervenção do Estado na economia como vem acontecendo desde a grande crise mundial de 1929. Algo que acontece, inclusive nos EUA, a meca do capitalismo mundial.

Hoje, o que mantém vivo o capitalismo não é apenas a sua vocação de produzir riquezas, mas também as políticas públicas e sociais, fomentadas pelo Estado do bem-estar social, que nasceram como uma síntese resultante da dialética Capitalismo/Comunismo. Sem elas, conheceríamos apenas a barbárie.”

(*) Albertino Ribeiro é economista e ensaísta