No artigo “Empresário inteligente acredita na magia do décimo terceiro”, o economista e ensaísta Albertino Ribeiro analisa o impacto do pagamento do abono natalino, que eleva as vendas, os lucros e os empregos no fim de ano. O 13º salário deverá injetar R$ 232,6 bilhões na economia brasileira neste mês, conforme previsão o DIEESE.

“O décimo terceiro salário foi criado no ano de 1962 pelo governo do presidente João Goulart. Quando a lei foi aprovada, a elite brasileira da época – que já estava ansiosa por um golpe de Estado -, atacou a gratificação natalina, dizendo que seria prejudicial para a economia”, relembra.

Veja mais:

Indústria tem alma e reage para mostrar que também é pop como o agronegócio, elogia economista

Ao analisar política industrial, ensaísta diz que militares agiam como “comunistas” na ditadura

Ensaísta faz tributo a Marília Mendonça para citar ideais da República abandonados no Brasil

Em seguida, ele cita editorial do jornal O Globo, da família Marinho, que previu a criação do benefício como um desastre para o País. “Tal previsão nunca se confirmou, muito pelo contrário, verificou-se que a economia só tem a ganhar com a tão esperada remuneração de final de ano”, observa.

“Por que muitos empresários repudiam algo que é tão eficaz para eles mesmos? Por que consideram o décimo terceiro uma sacola pesada em suas costas? Esse paradoxo não será clarificado se os empresários continuarem refém da retórica neoliberal que só tem resposta para os problemas complicados e não para os problemas complexos”, pontua.

O economista relembra os argumentos dos defensores da nova reforma trabalhista, que inclusive prevê a extinção do 13º. “Segundo a visão simplista e atomista de muitos patrões, a redução do custo do trabalho, em particular o pagamento do décimo terceiro, aumenta o emprego, pois as empresas podem vender seus produtos sem redução dos lucros; com o aumento dos lucros, haverá um aumento da poupança que, por conseguinte, elevará os investimentos e o número de empregos”, cita.

No entanto, na prática, a realidade é outra, garante Albertino Ribeiro.

Confira o artigo:

“Empresário inteligente acredita na magia do décimo terceiro

Albertino Ribeiro

O décimo terceiro salário foi criado no ano de 1962 pelo governo do presidente João Goulart. Quando a lei foi aprovada, a elite brasileira da época – que já estava ansiosa por um golpe de Estado -, atacou a gratificação natalina, dizendo que seria prejudicial para a economia.

Nessa mesma linha, em 26 de abril de 1962, a família Marinho – que sempre foi contra a classe trabalhadora – , publicou na primeira capa do jornal O globo, que o 13º salário seria um desastre para o país. Tal previsão nunca se confirmou, muito pelo contrário, verificou-se que a economia só tem a ganhar com a tão esperada remuneração de final de ano.

Destarte, segundo o DIEESE, este ano, o abono natalino vai injetar R$ 232,6 bilhões na economia brasileira, o equivalente a 2,7% do PIB. Corroborando com as expectativas, a Confederação Nacional do Comércio prevê para este ano a melhor contratação de temporário desde 2013, 94,2 mil pessoas.

A pergunta que não quer calar.

Por que muitos empresários repudiam algo que é tão eficaz para eles mesmos? Por que consideram o décimo terceiro uma sacola pesada em suas costas? Esse paradoxo não será clarificado se os empresários continuarem refém da retórica neoliberal que só tem resposta para os problemas complicados e não para os problemas complexos. “Como”?

Segundo o doutor Roberto Poli, professor de filosofia da Universidade de Trento, na Itália, os problemas complicados são aqueles que se originam de causas que podem ser abordados peça por peça. Por seu turno, problemas de sistemas complexos – como são os da ciência econômica – resultam de redes de múltiplas causas de interação que não podem ser distinguidas individualmente, ou seja, eles não podem ser tratados de maneira fragmentada.

Segundo a visão simplista e atomista de muitos patrões, a redução do custo do trabalho, em particular o pagamento do décimo terceiro, aumenta o emprego, pois as empresas podem vender seus produtos sem redução dos lucros; com o aumento dos lucros, haverá um aumento da poupança que, por conseguinte, elevará os investimentos e o número de empregos.

Esse argumento é o mesmo da cloroquina, que é eficaz “in vitro” contra o novo corona vírus, mas quando é posta à prova no mundo real não tem nenhuma eficácia.

Deferente disso, na economia real, a poupança dos ortodoxos é transformada em ativos financeiros e boa parte dela não vai se materializar em investimentos, principalmente no Brasil que é o reino da concentração de renda e paraíso dos rentistas. Então, se não houver demanda efetiva, ou seja, dinheiro no bolso do Papai Noel trabalhador, a redução de custo será inócua, pois não haverá mercado consumidor suficiente para desovar a pletora de mercadorias que ficarão encalhadas.”

(*) Albertino Ribeiro é economista, ensaísta e analista de informações socioeconômicas do IBGE