Fogo antige patamar histórico de 2020, que destruiu extensa área de vegetação nativa na região da Serra do Amolar, Norte de Corumbá. (Foto: IHP/Divulgação)

Os incêndios no Pantanal neste ano de 2021 já destruíram área equivalente a do ano passado, quando o bioma sofreu o pior desastre ambiental da história. Este é o terceiro ano seguido de seca e sob o impacto de fortes geadas. E como se isso não bastasse, pesquisadores apontam que a maior planície alagável do mundo teve redução de 74% da sua superfície de água desde 1985.

De janeiro até o último dia 21 de agosto, o Pantanal havia perdido 261.800 hectares para o fogo, o equivalente a dois municípios do Rio de Janeiro. É praticamente a mesma área queimada durante o mesmo período do ano passado (265.300 hectares). Diferentemente de 2020, quando os grandes incêndios se alastraram primeiro por Mato Grosso, neste ano a região mais crítica é o sul do Pantanal de Mato Grosso do Sul.

Os dados são do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais do Departamento de Meteorologia (Lasa), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e divulgados pelo jornal Folha de S.Paulo. “Neste ano, o Pantanal secou mais do que o ano passado”, afirma Márcio Yule, 57 anos, coordenador em Mato Grosso do Sul do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo), do Ibama.

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A intensidade das chamas e facilidade para surgimento de focos de incêndio é tão grande que assustou moradores do município de Bela Vista, a 324 km de Campo Grande, que viram o fogo se aproximar da zona urbana após se alastrar por uma região de chácaras, alguns moradores tiveram que deixar suas casas.

De acordo com o Corpo de Bombeiros, foi necessário mobilizar quartéis dos municípios de Jardim, Paranaíba, Aparecida do Taboado, Fátima do Sul e Campo Grande, para controlar as chamas. Até 125 militares do Exército em Bela Vista ajudaram os bombeiros.

Incêndios também destruíram, na semana passada, oito pontes de madeira nos pantanais de Corumbá e Porto Murtinho. O Corpo de Bombeiros e a Polícia Militar Ambiental (PMA) investigam a origem do fogo. Há indícios de ação humana, segundo os primeiros levantamentos, com a ocorrência do fogo apenas nas estruturas das travessias que dão acesso e escoamento a produção de regiões isoladas do bioma.

Nas estradas MS-325 e MS-243, Pantanal do Nabileque, ao Sul de Corumbá, sete pontes de madeira foram queimadas nos últimos dias, a maioria entre o Morro do Azeite (BR-262) e os trilhos da ferrovia Noroeste do Brasil, que corta a região pantaneira.

Nesta região, a localidade conhecida como Carandazal está concentrando os maiores incêndios florestais desde o início do mês de julho.

Outro grande foco de incêndio se alastra pelo Parque Cerro Corá, região histórica de Pedro Juan Caballero, no Paraguai, e atinge também o lado brasileiro da fronteira, sendo que já consumiu mais de 70% da vegetação da área. Os bombeiros e brigadistas voluntários trabalham no local há dias, mas não conseguem controlar as chamas.

Incêndios destruíram oito pontes de madeira nos pantanais de Corumbá e Porto Murtinho. (Foto: Divulgação/Corpo de Bombeiros)

Pantanal está secando

Nas últimas três décadas, o Brasil vem ficando cada vez mais seco. O país, de 1991 até 2020, perdeu cerca de 15,7% da superfície de água que possuía, o equivalente a 3,1 milhões de hectares. Todos os biomas apresentaram perdas, mas a situação mais preocupante é do Pantanal, com redução de 74% da superfície de água desde 1985 e 71% desde 1991.

Os dados, reproduzidos pelo jornal Folha de S.Paulo são provenientes do MapBiomas Água, ferramenta do MapBiomas que acaba de ser lançada. A partir de imagens de satélites Landsat, em pixels de 30 m por 30 m, e com auxílio de inteligência artificial, os pesquisadores conseguiram mapear a dinâmica mensal e anual dos corpos d’água superficiais do Brasil, desde 1985.

Em 2020, ficou clara a potência que as chamas podem ganhar no Pantanal. Em meio a um período amplamente seco, mais de 20% do bioma queimou, levando também a perdas de fauna na região, prejuízos para proprietários rurais e ainda o potencial de problemas respiratórios atrelados à fumaça das queimadas.

Um cruzamento de dados entre fogo e redução da superfície de água mostra que Corumbá, de 1985 a 2020, foi a cidade no Brasil com o maior número de queimadas e também o que mais perdeu água. Os dois líderes na perda de superfície de água são Mato Grosso do Sul (queda de 57%) e Mato Grosso (queda de quase 53%).

As causas apontadas para este cenário assustador são a crise climática, que provoca a expansão dos períodos secos e chuvas mais concentradas em um curto período de tempo; o desmatamento na Amazônia, que reduz as chuvas e afetam o Pantanal; e a diminuição do efeito esponja das florestas, que absorvem a água da chuva e a soltam aos poucos, ocasionado pela redução das matas.