Reinaldo Azambuja foi denunciado ao STJ por esquema de propina de R$ 67,7 milhões. (Foto: Arquivo)

Mencionadas por mais de cem vezes no inquérito da PF (Polícia Federal) sobre pagamento de propina de R$ 67,7 milhões ao governador Reinaldo Azambuja (PSDB), alvo da operação Vostok, as ERBs (Estações Rádio Base) mostraram por onde andavam os aparelhos celulares dos investigados. Enquanto movimentações bancárias foram usadas para seguir o rastro do dinheiro, coube às estações atestarem passagens pela JBS, empresa pagadora de propina, e encontros após saques de dinheiro.

Cada celular ligado emite sinal para as antenas espalhadas pela cidade. Se estiver ligado, “tagarela” que está em determinada área, chamada de célula. Se estiver em uso, é possível estimar a localização. Conforme o portal Telebrasil (Associação Brasileira de Telecomunicações), são 1.377 antenas no Estado. Do total, 590 ficam em Campo Grande.

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Na denúncia da PGR (Procuradoria-Geral da República), tornada pública recentemente, a análise dos registros das estações confirma a presença de Azambuja por duas vezes na sede da empresa, localizada na capital paulista: em 19 de setembro de 2014 (quando era candidato) e em 12 de novembro do mesmo ano (governador eleito).  O segundo turno da eleição foi em 26 de outubro de 2014.

Trecho da denúncia cita a análise entre as Erbs e celular de Azambuja no dia 12 de novembro de 2014. (Foto: Reprodução)

Durante a investigação, o assessor responsável pela agenda de Joesley Batista, proprietário da JBS e que fez delação premiada, disse que Rodrigo Souza da Silva, denunciado como operador do esquema e filho do governador, esteve na sede da empresa, em São Paulo, nos anos de 2015 e 2016.

Em 15 de janeiro de 2015, o aparelho utilizado  por Rodrigo fez uso de sinal de ERBs “que plotaram posicionamento em área convergente com a sede da referida empresa”.

Dias antes, em 13 de janeiro, Rodrigo recebeu ligação de terminal em nome da J&F Investimento, mas usado por Joesley.

Funcionário da JBS, Demilton de Castro também disse que o filho do governador foi à sede da empresa no início de 2015. Inclusive, na reunião, indicou Antônio Cortez como emissário de Reinaldo.

A delação informa que o primeiro pagamento de dinheiro vivo foi em 19 de janeiro daquele ano.  Neste raciocínio, segundo o inquérito, a ida de Rodrigo à sede da JBS, para indicar o emissário, deveria ter acontecido mesmo dias antes.

Saques – As antenas são usadas ainda para informar localização de investigados após a JBS transferir dinheiro. Um exemplo foi em 7 de abril de de 2015.

Na ocasião, a empresa fez transferência de R$ 554 mil para o pecuarista João Roberto Baird. Na mesma data, foram debitados dois cheques dessa conta em benefício da conta administrada pela Carandá . O valor total do débito foi de R$ 556 mil.

No mesmo dia, houve saque de R$ 40 mil da conta administrada pela Carandá. Nesse 7 de abril, ERBs registraram que os celulares do filho do governador e de José Ricardo Guitti Guimaro, o Polaco, estavam na mesma área.

Polaco era sócio do escritório de corretagem de gado Carandá e responsável por administrar conta bancária da empresa Buriti Comércio de Carnes.

“Em resumo, João Roberto Baird recebe o valor da JBS, transfere para a conta administrada pela Carandá, José Ricardo saca o valor de R$ 40.000,00 da conta administrada pela Carandá e, possivelmente, se encontra com Rodrigo na cidade de Campo Grande\MS para fazer a entrega do referido valor”, informa o inquérito.

Na quarta-feira (14), em sucinta nota sobre a denúncia apresentada ao STJ (Superior Tribuna de Justiça), o governador manifestou indignação. “Recebi com indignação a denúncia do MPF e aguardo com serenidade, a oportunidade de fazer valer o direito à ampla defesa”.

Equívoco – Em entrevista para o Campo Grande News, Azambuja definiu a denúncia como coleção de equívocos.

“A verdade é que já são três anos de inquérito e nesse longo tempo não conseguiram levantar uma única prova de que eu tenha cometido algum ilícito ou recebido vantagem indevida. Tenho fé que esse caso vai ter o mesmo destino de outros dois que frequentaram a mídia –   e fizeram o estrago que queriam – e   depois não viraram nada. Foram devidamente arquivados, porque totalmente improcedentes. O importante é que, agora, vamos ter a oportunidade de, pela primeira vez, fazer uma ampla defesa e esclarecer ponto por ponto.”

Joesley Batista delatou esquema de pagamento de popina para governador de MS. (Foto: Arquivo)