Apesar da situação de calamidade, Governo só intervém e não afasta OS do comando de hospital na fronteira (Foto: Arquivo)

Fracassou a política de terceirização da gestão dos hospitais públicos implantada em Mato Grosso do Sul pelo governador Reinaldo Azambuja (PSDB). O Instituto Gerir ganhou R$ 94 milhões entre agosto de 2016 e o início deste ano para administrar, mas deixou o Hospital Regional de Ponta Porã em situação de calamidade pública. A situação é gravíssima a ponto do Governo do Estado intervir na gestão da unidade hospitalar.

É o segundo revés em hospital administrado por Organização Social no Estado. Em Chapadão do Sul, a primeira cidade a sofrer os efeitos da modernidade tucana, a terceirização durou apenas seis meses, segundo o Sintss (Sindicato dos Trabalhadores em Saúde e Seguridade Social).

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Só que lamentavelmente, o Instituto Gerir não foi punido pela ineficiência e pelo caos no Hospital Doutor José Simone Netto. O Governo nomeou o auditor Eduardo Rodrigues, que já foi secretário municipal de Saúde de Ponta Porã, para intervir no estabelecimento a partir desta semana. A “intervenção negociada”, com o aval do Ministério Público Estadual, tem duração de 60 dias, podendo ser prorrogado por igual período.

Com 129 leitos, o hospital atende Ponta Porã e mais sete municípios da região sul de MS. Infelizmente, a “gestão eficiente e moderna” conseguiu resultado muito pior do que a do Hospital Regional Rosa Pedrossian, onde faltam remédios, insumos, materiais hospitalares e alimentos.

A unidade da fronteira vive com greve de médicos por atraso no pagamento de salários. Em 2017, um relatório feito pelo Governo indicou que a entidade só cumpriu 52% da meta prevista. Antes da intervenção, o índice chegou a 66%.

Para o presidente do Sintss/MS, Ricardo Bueno, o Governo deveria romper o contrato e dispensar o Instituto Gerir. Caso fosse um funcionário, o governador o demitiria. No entanto, como insiste na política de terceirizar as gestões dos hospitais para as organizações sociais, Reinaldo nomeou um servidor de carreira para ensinar a entidade como administrar o hospital.

Bueno destaca que Estado paga uma fortuna e agora vai ensinar entidade a administrar hospital (Foto: Arquivo)

O sindicalista conta que o Conselho Estadual de Saúde e os sindicatos foram contra a contratação do Instituto Gerir, que teve problemas em outros estados e não viria a fronteira com o objetivo filantrópico. Bueno acha que a organização social só quer lucro, sugar tudo o que for possível e deixar a cidade em situação de calamidade.

Com a intervenção branca, o secretário estadual de Saúde, Geraldo Resende, espera por fim à sucessão de crises na gestão do HR da fronteira.

O problema do Instituto Gerir não está restrito a Mato Grosso do Sul. Outros estados administrados pelo PSDB, como Goiás e Mato Grosso, registram os mesmos problemas, que vão da falta de remédios a atraso no pagamento dos profissionais da saúde.

Só que a entidade teve menos sorte no MT e em GO. Em Rondonópolis, o MPE ingressou com ação na Justiça e pediu o bloqueio de R$ 17 milhões. Em Sinop, outra ação pede o sequestro de R$ 5 milhões.

O caos se repetiu em Goiânia, capital de Goiás.

Em Mato Grosso do Sul, a entidade só sofreu intervenção e por período de dois meses. A decisão pode ter objetivo político, de não melar o modelo até repassar o Hospital Regional Rosa Pedrossian, o segundo maior do Estado, para uma organização social.

O HR da Capital tem orçamento de R$ 81,6 milhões por ano e enfrenta a maior crise da sua história, com médicos entrando em pânico ao constatar que não há material e remédio para tratar o doente na sala de operação. Parentes são orientados a comprar remédios para tratar os doentes.

Os repasses para a o Instituto Gerir

  • 2016 – R$ 11.663.000
  • 2017 – R$ 30.030.782,03
  • 2018 – R$ 42.353.612,11
  • 2019 – R$ 10.038.813,28

A calamidade levou o juiz José Henrique Neiva de Carvalho e Silva, da 1ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos, a determinar que as farmácias do HR reponham o estoque de remédios em 30 dias.

O caos no HR da Capital ganhou as páginas dos jornais alinhados com o Governo, que ignoram a crise na unidade terceirizada. A estratégia não tem como dar certo, porque um modelo falido não pode ser usado como exemplo.

Apesar da gravidade da situação, não houve, até o momento, nenhum deputado cumprindo seu papel para apurar o caos na rede de hospitais estaduais. Até quando vão ignorar a dor, a agonia e o desespero de quem paga os impostos?