Governador não cogita anular concurso que só teve 74 aprovados na primeira fase para mil vagas (Foto: Arquivo)

A reprovação de 99,46% dos 14 mil inscritos no concurso do magistério de Mato Grosso do Sul é “muito estranha” e inédita no País, segundo a CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação). O promotor Marcos Alex Vera de Oliveira abriu inquérito para apurar as falhas no processo.

Além disso, a Fetems (Federação dos Trabalhadores em Educação), que representa 25 mil professores, já anunciou que irá à Justiça para pedir o cancelamento do concurso público realizado pela Funrio, fundação da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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Conforme edital publicado pela entidade, contratada pelo Governo do Estado para realizar o concurso, dos 13.470 professores que realizaram as provas, 13.396 foram eliminados. Somente 74 foram aprovados na primeira fase e ainda vão precisar passar pela segunda avaliação para serem aptos para preencher as mil vagas oferecidas.

Para a secretária geral da CNTE, Fátima Silva, “é muito estranho” o fato de praticamente todos os inscritos terem reprovado na prova, porque não atingiram o percentual de 60%. “É uma coisa muito rara (em concursos públicos)”, ressaltou.

Conforme a dirigente da entidade, que representa os profissionais da educação pública brasileira, o índice normal de reprovação é de 20% a 30%. Agora, a aprovação de apenas 0,54% dos inscritos é inédita. “É a primeira vez que isso acontece no magistério”, ressaltou.

Fátima defende investigação aprofundada para descobrir as causas da reprovação recorde dos professores. “Esta reprovação merece ser melhor investigada”, propôs.

Secretária geral da CNTE, Fátima Silva diz que reprovação de 99,5% dos professores em concurso é “muito estranho” (Foto: Arquivo)

O caso já investigado pelo promotor Marcos Alex, que tem fama de “xerife do MPE”, por não se intimidar com polêmica nem poder dos envolvidos nos escândalos.

Ele já ouviu o coordenador de seleção de pessoal da Secretaria Estadual de Administração e Desburocratização, Paulo Victor dos Santos, e marcou para ouvir o presidente da Fetems, Jaime Teixeira, na próxima terça-feira (5). Ele ainda requisitou o edital do concurso realizado em 2013 para comparar com o polêmico processo realizado pela Funrio.

“Confesso que é um caso difícil, pois a maioria das reclamações se refere a má organização do concurso, má qualidade da impressão das provas, divergência e entendimento em relação às questões, pouco tempo para fazer a prova, etc”, admitiu o promotor.

A principal dificuldade está no fato de não haver suspeita de fraude, como ocorreu no processo da Polícia Civil, que teve vazamento da prova. A maioria das reclamações do certame da Educação se refere a má organização do concurso, má qualidade da impressão das provas, divergência e entendimento em relação às questões e pouco tempo para fazer a prova

“Mas estamos apurando e se constatarmos algum fundamento que dê para defender em Juízo, certamente o faremos”, explicou Marcos Alex. O foco do inquérito é verificar os defeitos da prova. “Mas é um caso difícil”, admitiu.

A Fetems já publicou nota de que, se for confirmada a taxa de aprovação de apenas 0,5%, ingressará com ação na Justiça para pedir o cancelamento do concurso.

No entanto, o governador Reinaldo Azambuja (PSDB), que prometeu na campanha eleitoral contratar os professores aprovados em concurso, já emite sinais de que lutará para manter o concurso com aprovação de apenas 74 candidatos.

De acordo com o Campo Grande News, o Governo não vai cancelar o concurso e está preocupado “em preencher as 927 vagas restantes”.

A administração estadual não vai ter dificuldades em preencher, já que contrata mais de 9 mil professores temporários e sem aprovação no concurso público.

Para a secretária geral da CNTE, a contratação de concursado garante mais qualidade no ensino. Os sindicatos avaliam que a contratação de temporários permite proselitismo político do diretor da escola e do próprio gestor estadual, que pode contratar apenas os que defendem a mesma ideologia política ou partidária.

E vão ser contratados, sem qualquer seleção, os reprovados no concurso público polêmico.

No final das contas, a qualidade do ensino segue comprometida. Ou não?