Ruso foi preso acusado de pagar mensalinho de R$ 3 mil aos vereadores em troca de apoio político. E as práticas republicanas da política? (Foto: Arquivo)

A tragédia política ocorrida há oito anos em Dourados se repete em Ladário, cidade com 22 mil habitantes a 430 quilômetros da Capital. Na manhã desta segunda-feira, o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) prendeu o prefeito Carlos Aníbal Ruso Pedrozo, o Ruso (PSDB), o secretário municipal de Educação, Helder Paes Santos Botelho, e sete dos 11 vereadores.

O desembargador Emerson Cafure, da Seção Especial Criminal do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, determinou a prisão preventiva do chefe do Executivo, do secretário e dos vereadores. Eles são acusados de pagamento de mensallinho, no valor de R$ 3 mil.

Veja mais:
Reviravolta ressuscita escândalo de 2010 e Justiça retoma ação contra “Mensalão Pantaneiro”
STJ nega agravo e acaba em pizza denúncia de mensalão pago a deputados, governador, TJ e MPE
STJ retoma investigação de mensalão e pode causar terremoto político em MS

É o verdadeiro deboche da política brasileira com os cidadãos e a Justiça. Treze anos após o famoso “Mensalão do PT” e da recente condenação do ex-governador mineiro Eduardo Azeredo pelo “Mensalão Tucano”, os políticos mantêm a prática criminosa de trocar apoio político por dinheiro.

De acordo com o procurador geral de Justiça, Paulo Cezar dos Passos, as autoridades de Ladário são acusadas pelos crimes de corrupção passiva e ativa e organização criminosa. A suspeita é de que ocorreu o mesmo “modus operandi” revelado em Dourados por meio das operações Owari e Urugano.

Cafure determinou a prisão preventiva e o afastamento do prefeito e do secretário municipal de Educação.

De acordo com o Diário Corumbaense, foram presos os vereadores Vagner Gonçalves e André Franco Caffaro, o Dedé, do PPS; Augusto de Campos, o Gugu, e Lilia Maria Cillalva de Moraes, a Pastora Lilia, do MDB; Agnaldo dos Santos Silva Júnior, o Agnaldo Magrela (PTB), Paulo Rogério Feliciano Barbosa (PMN) e Osvalmir Nunes da Silva, o Bagua (PSDB).

Os nove presos foram encaminhados para a Polícia Civil de Ladário e serão transferidos ainda hoje para o Centro de Triagem Anísio Lima, em Campo Grande, que já deveria ser chamado de presídio político, devido a grande quantidade de notáveis e acusados de corrupção encarcerados no local.

Ruso era do PMN quando disputou a prefeitura de Ladário pela primeira vez em 2012 e ficou em terceiro lugar. Ele se filiou ao PSDB e conquistou o cargo ao obter 50,09% dos votos em 2016.

Em entrevista ao jornal Midiamax, o presidente da Câmara, Fábio Peixoto (PTB), anunciou sessão ainda hoje com o que restou do legislativo – ele e mais três vereadores – para dar posse ao vice-prefeito Iranil Soares (PSDB) e aos sete suplentes.

Terremoto político em Ladário: mais da metade das autoridades atrás das grades (Foto: Diário Corumbaense )

A mesma tragédia política ocorreu em Dourados em 1º de setembro de 2010, quando o Tribunal de Justiça e a 1ª Vara Criminal determinaram a prisão de 29 pessoas, inclusive do então prefeito, Ari Artuzi, da primeira-dama, de quatro secretários e de nove vereadores, inclusive do presidente da Câmara.

Na ocasião, somente Artuzi foi condenado e acabou perdendo o mandato. Ele morreu de câncer anos depois. No entanto, somente neste ano, oito anos depois, a Justiça começa a despachar as primeiras sentenças envolvendo os empresários.

Não é só a demora no julgamento que contribui com este cenário. O mais notório talvez continua com a sensação de impunidade.

Outras autoridades citadas no escândalo não foram julgadas até hoje. Na época, a Polícia Federal revelou gravação do então secretário da Assembleia, Ary Rigo (PSDB), em que relatava pagamento de mensalão de R$ 2 milhões ao ex-governador André Puccinelli (MDB), de R$ 6 milhões aos deputados estaduais, de R$ 900 mil aos desembargadores do TJMS e de R$ 300 mil ao chefe do MPE,  procurador Miguel Vieira.

Até hoje, um grupo de advogados luta para quebrar o sigilo do legislativo estadual para apurar se a denúncia de Rigo procede ou não. A Assembleia luta com todas as armas para evitar a quebra do sigilo.

A Operação Coffee Break, que denunciou 24 políticos e empresários em 2015 por suposto conluio para cassar o mandato de Alcides Bernal (PP), é um exemplo. Em 25 de agosto de 2015, o TJ afastou o prefeito Gilmar Olarte e determinou a condução coercitiva de vários vereadores.

No entanto, até hoje, na esfera criminal, o juiz Márcio Alexandre Wust, da 6ª Vara Criminal ainda não decidiu se recebe ou rejeita a denúncia criminal.

Na área cível, o juiz David de Oliveira Gomes Filho, da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos, aceitou a denúncia contra 24 réus, mas o Tribunal de Justiça excluiu a maior parte dos denunciados da ação por improbidade administrativa.

O MPE recorreu e já conseguiu reverter quatro e aguarda o julgamento de mais sete, inclusive do ex-governador André Puccinelli (MDB), preso na Operação Lama Asfáltica desde 20 de julho.

A Coffee Break tem interceptações telefônicas feitas pela Polícia Federal em que empresários e vereadores armam para apear Bernal do cargo, porque estava contrariando interesses, como da Solurb.

Enquanto a corrupção e esquemas criminosos surrupiam o dinheiro público, a população sofre para pagar os impostos e na hora de receber os serviços essenciais de volta, como saúde, educação, segurança, infraestrutura, etc.