A Máfia do cigarro pagava propina aos policiais militares, que variava de R$ 3 mil por semana a R$ 100 mil mensais. Os dados constam do pedido de prisão preventiva feito pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) ao juiz Alexandre Antunes da Silva, da Auditoria Militar.

Maior operação contra o contrabando de cigarros desde 2011, a Operação Oiketikus, do Gaeco e da Corregedoria da Polícia Militar, resultou na prisão de 20 militares, inclusive três oficiais. Em troca de propina, eles davam proteção às organizações criminosas, faziam vistas grossas ao comboio dos produtos contrabandeados e até repassavam informações sigilosas aos criminosos.

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Comandada por nove promotores e 125 policiais, a operação cumpriu ainda 45 mandados de busca e apreensão. Além dos militares presos, outros 13 são investigados por corrupção e integrar a máfia do cigarro.

Com a carteira sendo vendida por R$ 2,50 nas ruas e bares da Capital, o cidadão não imagina a fortuna envolvida nos negócios com o cigarro paraguaio. De acordo com dados do setor incluídos na ação, o cigarro paraguaio já responde por 48% do consumo brasileiro, o que representa R$ 6 bilhões.

A marca mais vendida é da Tabacalera Del Este, que pertence a Horácio Cartes, atual presidente do Paraguai.

A investigação para desvendar a rede de policiais militares envolvidos nos crimes de corrupção e organização criminosa na região de fronteira foi solicitada pela Corregedoria da PM. Conforme o Gaeco, militares honestos e sem ligação com os criminosos procuravam o órgão para fazer as denúncias.

O Gaeco dividiu o grupo em dois núcleos, a da região de Jardim/Bela Vista/Bonito e o segundo, de Dourados/Maracaju/Mundo Novo.

No primeiro, supostamente liderado pelos oficiais presos na operação, os tenentes coronéis Admilson Cristaldo Barbosa e Luciano Espíndola da Silva e o major Oscar Leite Ribeiro. A maior parte dos policiais começou a se envolver com o crime organizado em 2016.

Conforme depoimentos e interceptações telefônicas, a máfia do cigarro pagava de R$ 50 mil a R$ 100 mil em propina aos acusados.

No núcleo dois, conforme a investigação, os militares colaboravam com os cigarreiros desde 2015. Na região de Dourados, eles estavam recebendo R$ 3 mil por semana para dar cobertura ao contrabando de cigarro. No entanto, este valor já chegou a R$ 15 mil por semana.

Nos últimos meses, as Polícias Federal e Rodoviária Federal fizeram várias apreensões de grandes quantias em dinheiro, que supostamente seriam destinados ao pagamento de vantagens indevidas aos PMs.

O Gaeco apourou que o comboio de oito carretas, que foram apreendidas em Maracaju, renderia R$ 30 mil em propina aos militares. O condutor estava com R$ 33 mil em dinheiro em espécie, que acabou apreendido.

Na região de Mundo Novo, na divisa com o Paraná e fronteira com o Paraguai, os criminosos pagavam R$ 10 mil por mês à rede de proteção formada pelos militares.

Com a apreensão de documentos, computadores e telefones celulares, os promotores do Gaeco devem apontar o envolvimento de mais policiais com o suposto esquema criminoso. Eles deverão ser denunciados à Justiça por corrupção e organização criminosa, entre outros crimes.