Venda da Eldorado pode comprometer mais de R$ 10 bilhões em investimentos e deixar de criar 40 mil empregos no Estado

O escândalo da JBS, o maior produtor mundial de carne, pode ampliar a crise na economia sul-mato-grossense e aumentar o número de trabalhadores demitidos neste ano. O Estado pode enfrentar o primeiro retrocesso na industrialização, impulsionada pelos incentivos fiscais e com dados positivos desde o governo de Zeca do PT e mantido pelo sucessor, André Puccinelli (PMDB).

Nos últimos 18 anos, Mato Grosso do Sul conseguiu implementar política de industrialização com bons resultados, o que resultou na criação do “vale da celulose” em Três Lagoas, frigoríficos e usinas de açúcar e etanol.

No entanto, a delação da JBS acusou que os incentivos só foram concedidos mediante pagamento de propina. Supostamente idealizado por Zeca, o esquema foi mantido por Puccinelli (R$ 112 milhões em propinas) e pelo tucano Reinaldo Azambuja (R$ 38,4 milhões).

No meio de escândalo, o grupo que mais investiu e gerou empregos no Estado. O mais grave é que a revelação ocorre quando Mato Grosso do Sul volta a eliminar postos de trabalho. Em maio deste ano, segundo o Ministério do Trabalho, houve o fechamento de 1.161 vagas de emprego, o pior resultado registrados em 15 anos.

A notícia não poderia ocorrer em pior momento. O governador e a cúpula da economia estão acuados por denúncias de cobrança de propina e devem ser alvos de investigações no legislativo, na polícia, no Ministério Público Estadual e no Superior Tribunal de Justiça.

A multinacional JBS também está acuada. A primeira medida do grupo, que deverá ter reflexo no Estado, é a venda da Eldorado Celulose, em Três Lagoas, onde produz 1,6 milhão de toneladas de celulose por ano.

Com a empresa nos classificados, o grupo desistiu da proposta de duplicar a capacidade de produção, que deveria resultar em investimentos de R$ 6 bilhões e a criação de 20 mil empregos diretos na fase de construção.

Caso a Araucho, empresa chilena, compre a Eldorado, a perspectiva é de pelo menos manter a atual estrutura. O risco maior é a compra pela Fibria, que iniciou as obras para ampliar a sua unidade sul-mato-grossense. O mais provável é que unifique as operações e ganhe fôlego logístico, mas que poderá comprometer os investimentos na duplicação. Ou seja, numa tacada só, a venda da Eldorado poderá tirar do Estado mais de R$ 10 bilhões em investimentos e 40 mil empregos.

Não bastasse este cenário, o Governo de Michel Temer (PMDB), acusado de ser chefe de organização criminosa pelo dono da JBS, Joesley Batista, decidiu usar o poder de estado para prejudicar o grupo.

A primeira medida já atingiu Mato Grosso do Sul com a sanção aplicada pelo Ministério da Agricultura em suspende a venda de carne pela unidade da JBS de Campo Grande para os Estados Unidos. O frigorífico é uma das maiores unidades do grupo e abate cerca de 3 mil bovinos por dia. Se manter este cenário, a JBS deve começar a demitir, agravando o quadro de desemprego no Estado.

Isso porque ainda pode sofrer sanções por parte do governador Reinaldo Azambuja, que já anunciou a revisão dos incentivos fiscais concedidos ao grupo. O tucano pode administrar com o fígado, considerando-se que perdeu força política e corre sério risco de não ser reeleito em 2018.

Neste cenário, a indústria pode ter a primeira retração no Estado. Entre 2002 e 2014, o PIB (Produto Interno Bruto) da indústria cresceu 405%, de R$ 8,4 bilhões para R$ 42,9 bilhões. Este crescimento, com a criação de empregos com melhores salários, o setor impulsionou a economia estadual, que cresceu 381%, de R$ 14,6 bilhões para R$ 70,3 bilhões.

O primeiro a sentir os efeitos deste novo cenário é o trabalhador, com a redução de empregos e opções de salários.