Renovada, mas sem mudar os velhos costumes: Câmara fez ontem eleição que só deveria ser feita em dezembro de 2022 (Foto: Divulgação)

Os vereadores de Campo Grande, inclusive os 17 dos 18 novatos, decidiram não correr risco com a sentença da Operação Coffee Break, prevista para o segundo semestre de 2022, e decidiram antecipar a reeleição do atual presidente, Carlos Augusto Borges, o Carlão (PSB), em um ano e meio. Ele foi reeleito praticamente por unanimidade, com apenas um voto contra, em sessão realizada nesta quinta-feira (15) para o mandato que só vai começar em 2023.

A antecipação do pleito mostra como os parlamentares brasileiros tratam a política, as normas e as instituições. O correto seria a eleição da nova Mesa Diretora ocorrer em dezembro do próximo ano, quando a atual completa o biênio.

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Oficialmente, Carlão disse que a antecipação para lhe garantir quatro anos no comando do legislativo tem o objetivo de “dar condições para fazermos um bom mandato”, conforme registro feito pelo Midiamax. Seria o mesmo que um prefeito, governador ou presidente só fizesse um excelente mandato se for reeleito no mesmo ano em que tomou posse. É o retrato acabado do nosso atraso.

“Por que antecipar? Por que não antecipar?”, teria questionado Carlão, tentando justificar o absurdo. “Tive coragem de pro meu nome, se eu não der conta, tenho coragem de renunciar”, garantiu o socialista.

Contudo, a manobra ocorre logo após o juiz David de Oliveira Gomes Filho, da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos, anunciar, em entrevista ao Campo Grande News, que a sentença da Coffee Break, no qual Carlão é um dos réus ao lado de outros vereadores, como Jamal Salem (MDB), João Rocha (PSDB), Gilmar da Cruz (Republicanos) e Otávio Trad (PSD), dever ser publicada no segundo semestre de 2022.

Coincidência ou não, a manobra evita que Carlão sofra desgaste na opinião pública caso a sentença lhe seja desfavorável. Ele também pode ser absolvido. No entanto, o Ministério Público Estadual aposta na condenação dos denunciados na Operação Coffee Break porque garante ter apresentado indícios e provas de que houve compra de vereador e movimentação bancária atípica no período da cassação do mandato de Alcides Bernal (PP).

Dos 17 novatos, o único parlamentar a questionar a manobra foi o Professor André (Rede). “Sou legalista, voto contra”, afirmou, conforme o Midiamax. O parlamentar fez elogios a Carlão, mas não deixou de criticar a eleição precoce, de votar em julho para uma mesa diretora que só vai tomar posse em janeiro de 2023.

“Tudo depende de Deus. Nosso pensamento é administrar a Câmara para dar condições a vossas excelências fazerem um bom mandato. Vamos defender a população e a Câmara tem feito sua parte. Essa administração (de seis meses) não é minha, é de vocês. Temos o compromisso com a nossa cidade. Essa Câmara, para ser uma Câmara atuante e respeitada, depende de todos nós. Agradeço a vossas excelências. Temos o compromisso de ficar até o final do mandato juntos com vocês”, discursou Carlão, com os quatro anos assegurados no comando do legislativo.

A Mesa Diretora é composta ainda pelos vereadores Dr. Loester (1º vice-presidente), Betinho (2º vice-presidente), Edu Miranda (3º vice-presidente), Delei Pinheiro (1º secretário), Papy (2º secretário) e Ronilço Guerreiro (3º secretário).

Na prática, a renovação da maioria dos vereadores mostra que as práticas do legislativo municipal permanece a mesma, ignorando a opinião pública.

Carlão foi eleito quase por unanimidade: apenas Professor André votou contra (Foto: Divulgação)